quarta-feira, 14 de maio de 2014

Carta Aberta - Desabafo de uma professora da prefeitura do município de São Paulo sobre a realidade vivenciada atualmente.


Carta aberta

Desabafo de uma professora da prefeitura do município de São Paulo sobre a realidade vivenciada atualmente.

Por: Ana Paula Lopes Gomes - 14/05/2014

Quero começar dizendo que “SOU PROFESSORA POR OPÇÃO” Contrariando a muitos comentários generalistas sobre esta profissão. Faço parte de um grande número de professores que realizam diversos cursos de complementação e atualização profissional (acredito que este é um fator importante para qualquer profissão). Trabalho com excelentes profissionais em escolas públicas e luto sim pela valorização de todos!!!
ESTOU EM GREVE!!! Não pensem que esta é uma situação confortável para nós que tomamos esta decisão. Na verdade é muito pelo contrário, afinal temos o compromisso com nossos alunos, pais e comunidade escolar, além do compromisso que firmamos com nós mesmos. Esta decisão compromete também nossa vida pessoal, pois quando entramos em greve sabemos que iremos oferecer os dias de reposição das aulas perdidas para que nossos alunos não fiquem prejudicados e nosso compromisso seja cumprido.
Quando entrei para a carreira do magistério, sabia que estava escolhendo uma PROFISSÃO CHEIA DE DESAFIOS, COM ALTA COBRANÇA E DE MÉDIA SALARIAL BAIXA. Mas é justamente por isso que eu devo ficar calada e esperar para me aposentar sem fazer nada para que esta realidade mude?
LUTO SIM E VOU CONTINUAR LUTANDO, pois acredito que meus alunos merecem uma educação de qualidade!!!
O que significa esta qualidade:
Qualidade na educação pública está longe de comparar a escola com “um lugar para deixar meu filho enquanto trabalho”, como já ouvi várias vezes em reportagens na mídia. A população deve PARAR DE EQUIPARAR QUALIDADE DE EDUCAÇÃO COM ALUNO NA ESCOLA!!!
Qualidade de educação é oferecer um ambiente adequado para a aprendizagem! É oferecer aos professores BONS MATERIAIS para que planejem e executem suas aulas. É DAR CONDIÇÕES AO ALUNO de tirar suas dúvidas e participar das aulas de forma digna em turmas com NÚMERO ADEQUADO DE ALUNOS para que isto seja possível. É trazer aqueles que trabalham diariamente na escola e vivenciam a realidade para participar de documentos e diretrizes para nossa educação, para que desta forma CONSIGAMOS AVANÇAR JUNTOS para o futuro!!!
Sou eu que estou em sala de aula E GASTO MEU SALÁRIO com materiais escolares e tecnológicos para qualificar minhas aulas. Sou eu que preciso usar a criatividade para utilizar 27 livros didáticos com 35 alunos. Sou eu que preciso me desdobrar para dar conta de uma sala de aula com giz e lousa. Sou eu que devo me adequar a cada mudança de governo que ao entrar no poder não analisa e muito menos pergunta aos professores o que já acontece de bom para dar continuidade e simplesmente acaba com os programas anteriormente desenvolvidos e cria novos programas (muitas vezes distantes na nossa realidade) COM O OBJETIVO DE ESTAMPAR A SUA MARCA E NÃO DE DESENVOLVER DE FATO A EDUCAÇÃO. Sou eu que carrego a esperança de toda população que almeja um futuro melhor para nossas crianças e por diversos fatores sou apontada como culpada por fracassos escolares ISENTANDO TODO O CONTEXTO DA SITUAÇÃO.
Estudei e continuo estudando para ser professora. Tenho um emprego que exige certas qualificações e apesar de trabalhar em um serviço humanitário é um EMPREGO e não um ato de caridade. Sou cobrada por resultados COMO EM QUALQUER OUTRA PROFISSÃO e mereço reajuste salarial inflacionário COMO EM QUALQUER OUTRA PROFISSÃO. Sou humana e tenho contas para pagar e compras para fazer.
Nós, professores, não somos detentores do saber. Nos colocamos no papel de “ensinantes e aprendentes” no processo educacional. Queremos ser reconhecidos como facilitadores da aprendizagem auxiliando nossos alunos em sua formação como cidadãos.
Sinto-me orgulhosa por fazer parte deste grupo de profissionais e envergonhada por ser deste país onde a corrupção é vista como normal, como parte da nossa rotina. Onde os profissionais que lutam por uma educação melhor para todos são vistos como vagabundos enquanto os que roubam o dinheiro de nossos impostos ficam impunes e suas ações vistas como naturais.
Reconheço que sou hoje fruto de professores que fizeram a diferença na minha vida de diversas maneiras, pois lutaram e continuam lutando até hoje por aqueles que como eu são frutos de seu ensino, aqueles que estão neste momento se formando na educação pública e aqueles que ainda estão por vir e merecem ser recebidos com uma educação digna!
Não posso deixar de expressar mais uma vez o orgulho que tenho pelos profissionais da educação que tomaram as ruas do centro da cidade de São Paulo caminhando pacificamente.
Sim meus amigos, a aula está sendo nas ruas, pois estamos mostrando aos nossos alunos que devemos lutar por aquilo que acreditamos sem a necessidade de atos violentos! Isto sim é um exemplo de cidadania!!! Isto sim deve ser aplaudido!!!
Estamos colocando nosso discurso em prática. Ensinando que o governo está lá para servir a população e devemos exigir o cumprimento das promessas descritas na campanha política. Afinal estamos cansados de ouvir que a educação é uma prioridade e vivenciar o contrário!
E quero deixar claro de uma vez por todas: Estou em greve sim por mim, por colegas de trabalho, por meus alunos e por toda a população.

Professora Ana Paula Lopes Gomes - 14/05/2014 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Bônus da Educação Paulista 2014

Segue abaixo o Vídeo Feito e Editado pelo Companheiro de Luta e Professor de Matemática Christian Longhuin . O Docente faz uma análise de conjuntura da Educação Paulista e da situação atual dos Professores que ficam a esperar as migalhas do Bônus. Abaixo segue o seu texto publicado em uma rede Social em que ele analisa a situação de penúria daquela que ele mesmo denomina "Cátedra Paulista".



POR Christian Longhin


“Somos uma aula viva para toda a humanidade. Somos o registro histórico que testifica em letras de ouro, o triunfo completo da burguesia sobre a classe trabalhadora. 250 mil professores de joelhos, implorando para que um pouco de farinha seja colocado em seu pirão. O sadismo do governo é tão grande, que contempla a agonizante categoria sem dar um pio, uma única nota sequer, enquanto milhares, ecoam a indagação desesperada "cadê o bônus?". Como cães sarnentos, olhamos para a mesa clamando por um farelo que caia do prato do patrão. É absolutamente decepcionante testemunhar o fundo do poço que se encontram aqueles que deveriam ser os primeiros a ir à luta, os primeiros a levantar as bandeiras da democracia e vê-los embriagados com o opio efêmero, resignados, semimortos a espera de um messias. A história um dia cobrará um alto preço do grupo Articulação/PT, por ter falhado em seu papel de promoção da consciência coletiva e mobilização dos trabalhadores.




quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os Bastidores da traição da APEOESP

Caros colegas de Profissão, Segue aqui o Vídeo que evidencia a traição anunciada da Apeoesp com os Professores da Rede Estadual de SP . É apenas a continuação ao vivo e a cores do texto que escrevi na época Crônica de uma traição anunciada . Escrevi até com alguns erros que só corrigi depois. Mas este vídeo que estamos a divulgar para que os Professores da Rede Estadual Paulista não percam a memória é um registro histórico de como a APEOESP  trata os Professores. Esse ano tem eleição na Entidade Representativa dos Professores e espero que os Professores arrumem um jeito de tirar essa gente do poder e tomar a APEOESP de volta para os trabalhadores. Segue abaixo os comentários de alguns colegas de luta que ainda insistem em lutar:

 Por Christian Longuin

Ainda discutindo a quarentena?

Excelente material, publicado antes de ontem. Vídeo de um Professor Independente, filmado no caminhão, mostrando bastidores da votação, da pós votação, da fuga escoltada pela PM, da celebracao reservada dos pelegos da Articulação Sindical culminando com um delicioso Baião de Dois na casa de um "camarada". Registro histórico esse, muito feliz. Precisa ser mostrado para os companheiros que estão nas escolas.

 Segue aqui a descrição do colega Ribamar Nogueira    Não estava presente neste dia, mas já havia assistido outros vídeos que mostravam como a votação foi descaradamente manipulada. Não há como questionar o registro, pois no momento da votação o vídeo não tem cortes e o áudio tem qualidade.

 Confira comigo no replay!
 A Bebel...

  •  00:05 solicita o voto pelo CANCELAMENTO da greve 
  •  00:24 pede para os votantes abaixarem o braço 

SEM PEDIR O REGISTRO FOTOGRÁFICO/GRAVADO DO VOTO

  •  00:30 reforça o pedido, incluindo as bandeiras
  •  00:35 solicita o voto pela CONTINUIDADE da greve
  •  00:44 solicita as ABSTENÇÕES durante a manifestação dos favoráveis pela continuidade da greve, SEM PEDIR QUE ABAIXEM OS BRAÇOS E SEM ESPERAR PELO REGISTRO FOTOGRÁFICO/GRAVADO DO VOTO 00:54 declara ENCERRADA a greve Pode isso, Arnaldo?!?!?

domingo, 15 de dezembro de 2013

Joaquim Nabuco - Documentário "Diálogo com Joaquim Nabuco".


Esperando algo da vida

Hoje, lendo tirinhas da Mafalda (como as que estão abaixo) lembrei-me de um poema de Gramsci. As tirinhas da Mafalda, na verdade do Quino, são sensacionais. Leia e reflita.

Mas, por favor, não se contente com a tirinha. Leia também o poema do Gramsci e aprofunde a reflexão.

Assim como ele, também odeio os indiferentes. Alguns, como Bertolt Brecht alertou, são analfabetos políticos. Mas, grande parte não. São apenas “indiferentes”.

Como diz Gramsci, “Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.”




Os Indiferentes


Antonio Gramsci

“Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que ‘viver significa tomar partido’. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca.

O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos.

O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo.

Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso.

Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.

Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente.

Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu?

Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes.

Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e, sobretudo, do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas.

Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir o pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.”

OBS.: Os grifos são meus.


in La Città Futura, 11/2/1917 (atualíssimo)