sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Professores estão excluídos do debate público sobre política educacional na América Latina, segundo pesquisa

Flávia Albuquerque
Repórter da Agência Brasil
09/nov/2011

São Paulo – Os professores estão fora do debate público sobre a educação e suas vozes não estão presentes nas coberturas jornalística da América Latina, segundo pesquisa do Observatório da Educação feita em 18 jornais do continente. Foram analisadas mais de 1.200 reportagens de maio a julho deste ano. As matérias indicam que as políticas públicas implantadas, os novos temas, disciplinas e materiais para as aulas são modificados sem que os professores sejam consultados sobre a política educacional.

“O professor é sempre um personagem e nunca uma fonte para balizar a política pública. E a má qualidade do ensino é sempre atribuída a eles. Estão sendo responsabilizados, mas não têm seu direito de resposta”, disse Fernanda Campagnucci, editora do Observatório da Educação, que participou do lançamento de Rede pela Valorização dos Docentes Latino-Americanos, hoje (9), na capital paulista.

Segundo Fernanda, a análise indicou que entre os temas mais comentados nos jornais estão a qualidade, seguida dos sistemas de avaliação, problemas de infraestrutura e violência nas escolas. Depois aparece a questão das tecnologias de informação na educação. “Nesse caso, dependendo do enfoque, entra em conflito com o docente, porque tem problemas de informação e uma ideia de que o aluno não precisa do professor para aprender porque consegue aprender sozinho com o computador”. Outro problema destacado nas reportagens analisadas são as greves e paralisações.

A vice-presidente da Internacional de Educação da América Latina, Fátima Aparecida Silva, disse que no geral a categoria dos professores é composta principalmente por mulheres, que chegam a ser 80% no ensino infantil e médio, enquanto no superior há mais homens. Além disso, apontou que os professores estão envelhecendo ao redor do mundo, já que a média de idade é de 45 anos. “A profissão não atrai mais gente jovem. Nos últimos dez anos, os mais novos ficam cerca de quatro anos dando aula até encontrar outra ocupação melhor.”

A ausência de formação é presente em todos os países, assim como a fata de um processo de negociação que traga valorização para a profissão, com diferenças entre a zona rural e urbana, tanto na formação quanto na remuneração. “Quando conversamos com os professores que vivem o dia a dia da aula, percebemos que eles reclamam ainda do número excessivo de alunos em sala de aula e da falta de participação nas políticas públicas, além da ausência de plano de carreira e do ressentimento por serem culpados pela má qualidade educacional.”

A coordenadora do Comitê Diretivo da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação (Clade), Camila Croso, disse que tem notado a tendência de desvalorização dos trabalhadores da educação, além do desprestígio e do processo de culpabilização e criminalização. “São tendências muito preocupantes, mas há também processos de resistência a tais tendências. Mas se sobressai o conjunto desvalorização, desprestígio e criminalização.”

Ela destacou ainda a tendência à privatização traduzida no nome de parcerias público-privadas, que aponta para outro lado, procurando ser atrativa. Disse também que há um marcante discurso sobre resultados na aprendizagem que não avalia os rumos da educação, mas dentro do foco de escola como fábrica de seres homogêneos montados para o mercado de trabalho.

“Esse sistema de ranqueamento é preocupante porque o resultado é medido sobre o quê? Aí voltamos ao ponto de partida que é perguntar para que serve a educação. Toda análise parte do aluno homogêneo que tem que responder ao mercado de trabalho”, assinalou Camila.

Ela também reforçou que há uma criminalização de professores e até dos alunos. “Há uma perda de noção do coletivo, porque há ataque aos sindicatos. Assim individualiza os professores e coloca o sistema de avaliação com prêmio e castigo. Desvaloriza o professor, porque leva a política de ensinar para o teste, para ir bem na prova. Adapta o currículo, se articula como o não protagonista do fazer pedagógico”.

Guillermo Williamson, da Universidad de La Frontera, do Chile, disse que em seu país a educação apresenta cifras de desigualdade e que não há gratuidade para o ensino. Lá, as universidades são pagas ou se têm bolsas de estudo para os pobres. “No Chile, 40% dos jovens podem ir à Universidade, mas se a família tem dois filhos precisa escolher qual deles pode ir ter o ensino superior”.

Segundo ele, assim como no Brasil. os jovens estão desistindo de ser professores por conta da precarização do ensino. “Temos que trabalhar fortemente na educação pública estatal e podemos buscar a gestão social com cooperativas mistas com o Estado”. Para ele é preciso retomar a função do professor, que em sua avaliação é ensinar os alunos e ser um mestre. Além disso ele destacou que é preciso que o professor recupere sua autoridade* em sala de aula.


Edição: João Carlos Rodrigues

Aproveito a ocasião, para pedir aos leitores/as do Blog que participem, façam comentários sobre a matéria acima publicada na Agência Brasil.

Uma reflexão sobre ensino-aprendizagem

A imagem abaixo foi enviada pelo Celso, de Sorocaba (assessor da PJE Sul 1 e membro da Comissão Nacional de Assessores da PJE). Nos faz refletir sobre o que e como os professores "ensinam" na escola. Ou melhor, o que os alunos apreendem daquilo que os professores "ensinam". Vale à pena iniciarmos um debate sobre isso. Aguardo opiniões.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pinóquio Kassab e a falta de vagas em creches

O texto abaixo foi publicado pelo O Estado de S. Paulo. Fala sobre a falta de vagas em creches na cidade de São Paulo.

Lembro que durante a campanha eleitoral, para derrotar a candidata Marta Suplicy, que nas pesquisas aparecia na frente, o prefeito Pinóquio Kassab, entre a enormidade de promessas feitas – como acabar com as enchentes –, prometeu zerar o déficit de vagas em creches em São Paulo. O pior é que o povo acreditou.

Espera por vaga em creche de São Paulo bate novo recorde na gestão Kassab
Atualmente, mais de 174 mil crianças estão na fila; prefeito prometeu zerar déficit até o fim de 2012

08 de novembro de 2011 | 19h 17

Adriana Ferraz - O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - A espera por uma vaga na rede municipal de creches bateu recorde em setembro. Hoje, 174.168 crianças estão na fila por uma matrícula em São Paulo. Há quatro anos, esse número era de 158.689, até então o maior da gestão Gilberto Kassab (PSD), que prometeu zerar o déficit até o fim de 2012.

O número é resultado de uma série de projetos que não foram para frente. Na lista está uma Parceira Público-Privada (PPP), barrada pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).

Hoje, a maioria das creches é administrada por entidades filantrópicas. Nesse modelo, o Município repassa às entidades um valor mensal por criança atendida e, por isso, não precisa contratar funcionários. E em 70% desses casos o prédio utilizado para abrigar as crianças pertence à entidade responsável.

A Secretaria Municipal da Educação diz que adota a fórmula porque tem dificuldades para encontrar terrenos livres nos bairros com maior procura - caso do Grajaú, na zona sul, onde 7.891 crianças estão cadastradas na fila, a maior da cidade.

O problema se repete em todos os 96 distritos. Na Brasilândia, zona norte, dez reclamações são registradas por dia no Conselho Tutelar. "Já relatamos a situação no Ministério Público Estadual. O ritmo de oferta de novas matrículas é muito baixo", diz o conselheiro Fábio Ivo Aureliano. Na região, 4.869 crianças estão fora da rede.

No plano de ações da Prefeitura está a construção de 59 unidades próprias e a troca de um terreno de 20 mil metros quadrados no Itaim-Bibi, na zona sul, por creches. Mesmo se ambas as ações saírem do papel, a meta de zerar o déficit ainda ficará distante.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Programação completa do lançamento (9/11); inscreva-se!

Iniciativa pela valorização dos educadores latino-americanos será lançada amanhã, 9/11, em São Paulo

Evento terá transmissão ao vivo pela internet com bate-papo interativo a partir das 9h

A partir do diagnóstico de que a melhora da educação pública depende da efetiva valorização dos educadores e das educadoras, organizações de diferentes países da América Latina lançam, amanhã (9/11), a Rede pela Valorização d@s Docentes Latino-american@s.

A articulação já conta com pessoas e organizações integrantes de Argentina, Brasil, Equador, Paraguai, Chile, Uruguai, Nicarágua, Costa Rica e Peru, mas está aberta à participação de todos os países da região. Veja mais detalhes da programação abaixo e clique aqui para fazer o credenciamento.

“A agenda da valorização docente deve ser assumida por toda a sociedade, por isso a importância de se reunirem diferentes forças políticas nessa iniciativa”, ressalta Denise Carreira, coordenadora de Educação da Ação Educativa. Estão envolvidos na rede articulações e organizações da sociedade civil, educadores, associações e confederações sindicais docentes e pesquisadores. 

A Rede possui três eixos estratégicos de atuação: comunicação, pesquisa e articulação política. Como ação do primeiro eixo, foi criado o portal Vozes da Educação (www.vozesdaeducacao.org.br), que será apresentado no dia 9. Durante o evento, também serão divulgados dados de um primeiro levantamento sobre o tratamento dos meios de comunicação latino-americanos às questões docentes.

“Verificamos a ausência da voz dos professores na cobertura sobre educação de dez países da América Latina, embora esses profissionais estejam em posição privilegiada para opinar sobre o tema”, aponta Fernanda Campagnucci, editora do Observatório da Educação. No levantamento, foram identificadas como marcas do debate público a culpabilização dos docentes pela má qualidade do ensino e a abordagem pouco aprofundada de políticas voltadas à docência.  

O estímulo e o fortalecimento da participação docente na discussão e elaboração de políticas públicas são objetivos da articulação. Para dar visibilidade aos diferentes discursos e experiências, o portal Vozes da Educação trará depoimentos de professores/as (em áudio, vídeo ou texto) de diferentes lugares da América Latina – na Amazônia, no altiplano andino, no campo, nas capitais...

Debates e pesquisas

A cada 15 dias, um novo tema de debate será proposto no portal. O primeiro tema já está no ar: a adoção, pela cidade de Buenos Aires, da avaliação de desempenho de professores com vistas à bonificação por mérito. Será possível criar blogs na Rede, participar de comunidades e de fóruns de discussão temáticos. O cadastro pode ser executado em poucos passos. 

Em seu eixo de pesquisa, a Rede desenvolverá estímulo à produção e divulgação de estudos sobre a condição docente na América Latina, trabalhando também com pesquisas participativas em forma de consultas. Também vai construir um banco de estudos e publicações sobre a questão docente, além de trazer dados sobre a condição dos professores e das professoras na América Latina.

Alguns temas de debate foram escolhidos como prioritários:

* questões referentes à valorização dos docentes (sistemas de avaliação/bonificação e incentivos, ingresso e progressão na carreira, formação inicial e continuada, o papel do docente, condições de trabalho, formas de contato e remuneração, rotatividade e absenteísmo, entre outros).

* concepções pedagógicas (os paradigmas do ensino, relação docentes-família, relação entre a aprendizagem e a afetividade/cuidado).

* abordagem da educação como bem público (a relação entre o público e o privado, a educação como direito humano e o financiamento necessário para uma educação pública de qualidade).

Entre as organizações vinculadas à iniciativa, estão Ação Educativa (Brasil), CDI – Centro para el Desarrollo de la Inteligencia (Paraguai), CIDPA – Centro de Estudios Sociales (Chile), El Abrojo (Uruguai), Escuelas del Bicentenario (Argentina) e Fundación AVINA. Apoiam a rede a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Campanha Nacional pelo Direito à Educação e Campanha Latino-americana pelo Direito à Educação.

Programação
Abertura: 9h00 – 10h00
Exposição dos objetivos e estratégias da Rede, lançamento do portal Vozes da Educação e divulgação de levantamento sobre os professores e professoras na imprensa latino-americana.

Debates
Com a participação de pesquisadores, educadores da rede pública, confederações sindicais, organizações e articulações da sociedade civil latino-americanas.

10h30 – 12h30 A questão docente na América Latina
Fátima Aparecida Silva (Internacional de Educação da América Latina – IEAL); Guillermo Williamson (Universidad de La Frontera, Chile); Marcelo Mosqueira (professor e diretor de escola pública em Buenos Aires, Argentina); Milton Luna, coordenador do Contrato Social pela Educação e integrante do comitê diretivo da Campanha Latino-americana pelo Direito à Educação. Mediação: Monica Zefferino (El Abrojo).

14h00 – 16h30 Uma agenda de toda a sociedade brasileira
Roberto Franklin Leão (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE); Daniel Cara (Campanha Nacional pelo Direito à Educação); Eduardo Amaral (professor de Filosofia da rede estadual de São Paulo); Teresa Aliperti (professora do ensino fundamental I na rede municipal de São Paulo); representante do Movimento Todos pela Educação; Álvaro Hypolito (Red Estrado, UFMG). Mediação: Denise Carreira (Ação Educativa).

17h00 – Exibição especial do Filme Carregadoras de Sonhos
Produzido pelo SINTESE – Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe. Duração: 65 minutos.

Leia também:

Serviço
Lançamento da rede Vozes da Educação
Data/horário: 9/11/2011, das 9h às 18h.
Local: ONG Ação Educativa – Rua General Jardim, 660 – Vila Buarque. São Paulo, SP.
Veja a programação completa em
www.vozesdaeducacao.org.br.

Contatos para imprensa

Ana Cláudia Mielki – Assessora de comunicação da Ação Educativa
(11) 3151-2333 ramal 160